quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

ESCRITORES D´OIRO "Guedes de Amorim"



Pesquisa e Fotos de Almiro Moreira

 Residente em Matosinhos, natural da freguesia de Sedielos, Peso da Régua.
 Um enamorado pela cultura das suas Raízes.


 Da-nos mais a conhecer a vida e obra de:

António Guedes de Amorim nasceu no lugar de Sá, freguesia de Sedielos, concelho do Peso da Régua, em 26 de Outubro de 1901. «Sou filho e neto de cavadores e tenho séculos de enxadas atrás de mim… Como brasão, honra-me e chega.» – diz numa entrevista a Lopes de Oliveira.
É um bom exemplo de escritor que se fez a si mesmo, contando apenas com o seu talento e persistência, pois as condições económicas da família não lhe permitiram levar a escolaridade além do ensino primário, que concluiu na Régua. Aos oito anos, ainda na escola, manifestou-se a sua vocação para a escrita, já que foi nessa altura responsável pelo pequeno jornal de parede da escola. Já então, nesse jornal de parede, defendia os pobres trabalhadores rurais do Douro.
Terminado o ensino primário, com onze anos apenas empregou-se num estabelecimento de fazendas, ainda na Régua, frequentando à noite aulas de um professor que lhe ensinou algo mais. Depois de uma breve passagem por Penafiel, mudou-se aos dezasseis anos para o Porto, onde encontrou um emprego no mesmo ramo de comércio. Mas aqui, dando largas à vocação da sua vida, foi desde logo começando a colaborar em algumas publicações e a escrever textos para récitas académicas. Pouco depois vemo-lo a colaborar assiduamente em diversos jornais do Porto (entre eles, A Tribuna e o Jornal de Notícias) e também de Lisboa, África e Brasil. Esta intensa actividade jornalística passou a ser a sua profissão. Até final da vida, publicaria muitas centenas, senão milhares, de crónicas em inúmeras publicações regulares. Chegavam a aparecer diariamente, nos diversos jornais, quatro e cinco artigos de sua autoria. Pelos seus próprios cálculos, escrevia por dia umas cinco mil palavras.
Com pouco mais de vinte anos, fixou-se em Lisboa, onde prosseguiu e intensificou a actividade jornalística, a que somava agora a criação literária propriamente dita: romances, novelas e contos.
Guedes de Amorim encontra os temas para a sua ficção não apenas no mundo rural, que aliás deixou muito novo, mas também na grande cidade. Em ambos os casos se movimenta com muita desenvoltura, privilegiando os temas sombrios e os dramas e conflitos sociais. Numa primeira fase, a sua literatura mostra influências do naturalismo, sobretudo na escolha de temas e ambientes urbanos mais ou menos mórbidos e nocturnos.
A partir de 1939, ano da publicação de Aldeia das Águias, volta-se preferentemente para os temas rurais, aproximando-se então dos cânones do neo-realismo, tal a preocupação com a sorte dos mais pobres e desprotegidos e com os conflitos sociais. Ele próprio estava então próximo, ideologicamente, do marxismo. «Eu não sei falsificar a vida!», diz Guedes de Amorim na entrevista referida. «Depois, os meus livros são espelhos dos que vêm de baixo, dos que carregam hereditariedades de infortúnio e não viram ainda o sol da ventura!... Eu não sei atraiçoar os que sofrem.» Escreve então alternadamente sobre temas urbanos e rurais, mas sempre nessa perspectiva de intervenção social.
Mas, a partir de certo momento, após a leitura de uma obra sobre São Francisco de Assis, assumiu uma postura intelectual próxima do cristianismo. Ele próprio conta, no longo preâmbulo à sua biografia de São Francisco, o episódio simbólico de como trocou, num alfarrabista, o seu exemplar de O Capital pelas Florinhas do glorioso São Francisco e seus frades, que nessa mesma noite de insónia leu, e com a leitura encontrou «um novo caminho, que me dava outra, completa e definitiva dimensão do Homem».
Iniciou então nova etapa da sua carreira de escritor. Escreveu então duas obras que reflectem a sua nova atitude: Francisco de Assis, Renovador da Humanidade (1960) e Jesus passou por aqui (1963). E a visão do mundo segundo uma óptica franciscana nunca mais o abandonou. Na morte, que ocorreu em Lisboa a 11 de Março de 1979, quis ir amortalhado com o hábito da Ordem de São Francisco.
Como obras da ruralidade, são de destacar os livros de contos Os barcos descem o rio (1945), A máscara e o destino (1951) e Caminhos fechados (1952), e os romances Aldeia das Águias (1939) e Casa de Judas (1953).
Guedes de Amorim recebeu, entre outras, duas importantes consagrações: a Academia das Ciências de Lisboa conferiu-lhe o Prémio Ricardo Malheiros, em 1939, pelo romance Aldeia das Águias e o Pen Club do Brasil atribuiu-lhe o Prémio Cervantes pela obra Jesus passou por aqui, entregue em 1964 .
Em 26 de Outubro de 2001, assinalando o centenário do seu nascimento, foi prestada uma homenagem a Guedes de Amorim, com a colocação de uma lápide na casa onde nasceu e uma sessão cultural, na Régua.
O jornalista Guedes de Amorim escreveu um número enorme de crónicas, nas quais certamente haverá alusões mais ou menos detalhadas aos concelhos de Lamego, Santa Marta de Penaguião, Mesão Frio e Vila Real, concelhos que, juntamente com o do Peso da Régua, onde nasceu, constituíam o seu universo da juventude. É um trabalho de investigação que está por fazer e será certamente um desafio estimulante para quem se abalance a aceitá-lo.
Nas suas obras de ficção, um pouco ao acaso, foi possível recensear diversas referências interessantes a Vila Real, algumas das quais confirmam aliás certos lugares comuns vila-realenses, que se encontram igualmente presentes na obra de outros escritores.
No livro de contos A máscara e o destino, tenha-se em consideração que a figura de Aninhas, no conto homónimo, viera para Vila Real fazer o Curso do Magistério Primário. A presença desde muito cedo de médicos especialistas na sede do distrito é lembrada no conto «Comboio de Vila Real» (sem dúvida, o comboio da Linha do Vale do Corgo), que motiva na personagem principal a evocação das viagens reais naquela mesma linha para as estâncias termais do Alto Tâmega.
No romance Casa de Judas, o autor recorda o combate de Parada de Cunhos e a ocupação de Vila Real pelas tropas trauliteiras.
No romance Aldeia das Águias, Henrique e Eduardo são alunos do Liceu de Vila Real. Estavam hospedados em casa dos Samardãs, faziam longos passeios na Rua Direita, iam até à estação do caminho-de-ferro à chegada do comboio correio, davam passeios na Avenida Carvalho Araújo, onde um deles, Eduardo, fixava com interesse a casa onde, segundo a tradição, nasceu Diogo Cão. Há também a referência aos capitalistas usurários de Vila Real e uma magnífica descrição do passeio de trás do cemitério.

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